A Missão do Sono entre a História e a Antropologia Visual

  • Luis Manuel Neves Costa Faculdade de Ciências e Tecnologia * Departamento de Ciências da Vida/ Antropologia CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia), Universidade de Coimbra
Palavras-chave: Medicina Tropical, Doença do Sono, Missão do Sono, Fotografia, Antropologia Visual

Resumo

Este artigo faz uso da Missão Permanente de Estudo e Combate da Doença do Sono na Guiné Portuguesa (1945-1974), tutelada pelo Instituto de Medicina Tropical e enquadrada no projecto de “ocupação científica”, focando-se na produção e circulação de imagens em publicações coloniais, como estudo de caso. Nessas publicações, recorre-se frequentemente ao uso da fotografia enquanto documento de ilustração, demonstração e testemunho do relatado no texto e para além dele. A fotografia emerge como um instrumento essencial da Medicina Tropical, deixando transparecer utilizações para lá dos usos médicos e científicos, podendo configurar-se também no seio do uso social, cultural ou político. Esta análise centra-se em fotografias publicadas no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa que contribuíram para divulgar espaços e nativos, configurando-os em torno da patologização tropical, o que evidenciava a necessária presença, acção e missão da autoridade colonial. Considerando a fotografia histórica como um “dado antropológico”, propõe-se a análise de fotografias ‘médicas’ produzidas em missão, procurando perceber qual o estatuto da fotografia na medicina tropical, de que modo estas imagens mobilizam para a memória das missões, quais as representações sobre a doença, o corpo do Outro e a interacção e relação colonizador-colonizado. Esta perspectiva, leva-nos a considerar a fotografia, como objecto de estudo antropológico sobre a memória e a medicina nos trópicos, essenciais à difusão de uma ideia de Império. Após a contextualização da ocupação científica e imagética da Guiné Portuguesa, abordamos a missão do sono e o seu enquadramento, permitindo-nos dirigir o olhar para a análise do objecto principal da nossa análise – a fotografia produzida em missão. Na tentativa de sistematizar a análise deste “arquivo visual” e ultrapassar questões metodológicas, optou-se pela sua organização em categorias interpretativas ou narrativas. Este artigo é um exercício de arqueologia de arquivo, resgatando documentos fotográficos resultantes da actividade científica e de assistência do Instituto de Medicina Tropical, conferindo-lhes contextualização histórica e interpretação antropológica. É um exercício para ver para lá do visível, para ler para lá do não-dito.

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Publicado
2018-09-08