DOENÇAS DA POBREZA, NEGLIGENCIADAS E EMERGENTES

  • Ricardo Parreira Grupo de Virologia, Unidade de Ensino e Investigação de Microbiologia Médica, Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), Universidade Nova de Lisboa; Unidade de Parasitologia e Microbiologia Médicas (UPMM) / IHMT
  • Lenea Campino Unidade de Ensino e Investigação de Parasitologia Médica, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa; Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina, Universidade do Algarve

Resumo

A designação “ doenças negligenciadas e da pobreza” refere, embora nem sempre com contornos bem definidos, um conjunto de doenças que ocorrem, predominantemente, em países em desenvolvimento, as quais infligem um enorme impacto na morbilidade e mortalidade das populações por elas at ingidas. Ainda que, para algumas delas, não existam medidas prevent ivas ou terapêut icas adequadas, a sua persistência é, muito frequentemente, função de questões sociais e económicas que permitem que os seus agentes et iológicos e os seus eventuais vetores t irem part ido do ambiente físico. No entanto, as consequências que estas doenças têm nas populações humanas vão para além dos seus efeitos diretos na saúde. De facto, elas aprisionam os que são at ingidos (normalmente as populações mais desfavorecidas) num ciclo vicioso de pobreza, de desenvolvimento deficitário na infância, impacto negat ivo nas taxas de fert ilidade e natalidade, e na produt ividade dos que t rabalham (Hotez et al., 2009). As doenças negligenciadas ou esquecidas são causa da falta de interesse das autoridades competentes, da total ausência ou de raros invest imentos que permitam a invest igação e o desenvolvimento conducentes à sua prevenção ou cura. Muitas destas doenças cont inuam a não representar um invest imento apetecível para as empresas farmacêut icas e para governos. Se, até ao princípio da década de 1980, a perspet iva “ erradicacionist a” dominou a forma como a medicina olhava as doenças infeciosas (Snowden, 2008), a descoberta da sida em 1981 incorporou tudo o que os erradicacionistas consideravam impensável: uma nova doença infeciosa para a qual não exist ia cura, que at ingia não só países em desenvolvimento mas também potências indust rializadas, e à qual se associava, frequentemente, uma série de agentes patogénicos oportunistas. Um dos mais frequentemente diagnost icados nas coinfeções é a bactéria Mycobacterium tuberculosis, responsável por uma doença que, apesar de conhecida pelo Homem desde há longa data - a tuberculose - é, nos dias de hoje, uma doença reemergente, responsável por milhares de mortes, tanto em países desenvolvidos como em países em vias de desenvolvimento. Às doenças negligenciadas e da pobreza associam-se, então, frequent ement e, out ras designadas de “ emergent es” ou “ reemergent es”. O t ermo “ emergent e”, cunhado durant e a década de 1990 por Joshua Lederber, pretende incluir um conjunto de infeções cuja incidência junto das populações humanas tem vindo a aumentar, e se postula que assim cont inue a acontecer num futuro próximo (Davis e Lederberg, 2000). Se bem que algumas das doenças que abordaremos nas páginas que se seguem prosperem em ambientes de conflito social e político, onde as populações mais vulneráveis às infeções são também alvo de descriminação, algumas delas têm, nos dias de hoje, um impacto não negligenciável nos países ditos desenvolvidos. Tal facto é resultado de um aspeto que domina o mundo na atualidade, a globalização, na forma das movimentações em massa, voluntárias ou não, de bens e pessoas, e que permitem uma expansão constante do pool genético dos agentes infeciosos, ao mesmo tempo que lhes garante acesso ilimitado a populações não imunizadas. Além da globalização, o crescimento demográfico que assume, por vezes, contornos quase incont rolados e caót icos, ocorre, mais frequentemente do que não, em condições que se tornam um paraíso para os microrganismos e insetos que os t ransmitem. Dele é consequência o desenvolvimento, muitas vezes mal ou não-planeado, de megacidades onde se concent ram vários milhões de pessoas, uma porção considerável das quais vive em condições de grande insalubridade, por vezes em contextos de pobreza quase ext rema, onde as infraest ruturas, condições sanitárias e nível educacional são também altamente deficitários. Por out ro lado, a intervenção humana no ambiente é fonte geradora de alterações na dinâmica populacional dos agentes de infeções at ravés da expansão, perturbação ou criação de nichos ecológicos. Finalmente, as alterações climát icas que se têm registado, especialmente na últ ima década, têm cont ribuído não só para alteração da sazonalidade do ponto de vista temporal, mas também para a modificação dos limites geográficos dos diferentes ambientes ecológicos. Este capítulo será dedicado a um conjunto muito diversificado de agentes patogénicos, os quais estão na origem de um conjunto não menos diverso de doenças ditas da pobreza, negligenciadas e emergentes. Nele estão incluídas infeções/doenças causadas por geohelmintas e por out ros helmintas, tais como as filaríases, e schistosomose, por protozoonoses, tais como amebíase, giardíase, criptosporidiose e out ras infeções intest inais, leishmaniose, malária e t ripanossomoses. De ent re as patologias de origem bact eriana, e ainda que a cólera seja, talvez, aquela que melhor representa uma doença da pobreza, espelho de condições de vida abaixo do limiar do humanamente aceitável, destacaremos a leptospirose, a sífilis e a tuberculose. Doenças provocadas por fungos, tais como micoses oportunistas emergentes e micoses importadas t ropicais e, finalmente, doenças virais, como as causadas por vírus t ransmit idos por artrópodes (arbovírus), por vírus entéricos causadores de diarreias, pelo vírus da hepat ite delta e pelo VIH, serão ainda foco de atenção ao longo das próximas páginas.

Downloads

Não há dados estatísticos.
Publicado
2018-09-08
Secção
Artigos Originais