Processo de ensino-aprendizagem no ensino superior - O caso específico da unidade curricular de Ginecologia-Obstetrícia na Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

  • Maria Manuela de J. Mendes Licenciada em Medicina Luanda, 2008
  • Elizabete Maria Ferraz Loureiro Carteado Mestre em Psicologia da Saúde; coordenadora executiva do Centro de Educação Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Palavras-chave: Metodologias de ensino-aprendizagem, educação médica, Ginecologia e Obstetrícia, formação académica de docentes do ensino superior, processo de ensino-aprendizagem no ensino superior

Resumo

O presente trabalho constitui um estudo de caso que aborda as conceções dos estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto (FM-UAN) sobre o processo de ensino-aprendizagem da Ginecologia-Obstetrícia e a sua relação com a formação médica.

Pretendeu-se caracterizar a conceção dos estudantes do 5º e 6º anos da FM-UAN sobre o processo de ensino-aprendizagem na disciplina de Ginecologia/ Obstetrícia, tendo em conta a (1) organização global da disciplina, (2) os objetivos educacionais na unidade curricular de Ginecologia e Obstetrícia e (3) investigar a sua relação com os dados sociodemográficos, nomeadamente: idade, sexo, estado civil, deslocação da residência de origem, ano de matrícula no curso, tempo de permanência na unidade curricular.

Neste âmbito, apresenta-se uma revisão crítica da literatura através da qual se procura analisar questões relacionadas com a formação pedagógica dos professores no ensino superior e sua implicação na formação médica, as principais metodologias de ensino-aprendizagem nos cursos superiores e análise do contexto da FM-UAN. O estudo empírico contou com uma amostra de 147 estudantes, sendo 41,0% do 6º ano e 52,0% do 5º ano, 65,0% do sexo feminino e 32,0% do masculino. A recolha de dados foi feita através da aplicação de um inquérito. Os dados foram analisados no programa SPSS versão 14.

Em termos de avaliação global da disciplina obtivemos pontuações positivas em relação a todos os itens que compõem este grupo, exceto, no que se refere ao contexto de ensino-aprendizagem em que os estudantes pontuam negativamente. Neste grupo foi testada a hipótese da influência dos dados sociodemográficos sobre os domínios que compõem a avaliação global da disciplina o que foi, em parte, apoiado pelos dados obtidos. Por exemplo: no domínio prestação dos estudantes, nos itens ano do curso, os estudantes do 6º ano dão pontuações mais elevadas, assim como os não trabalhadores, e os que referiram estudar tempo igual ou superior a quatro horas diariamente. No domínio regime de avaliação, os deslocados da sua residência atribuem valores mais altos com resultado estatisticamente significativo; de igual forma no domínio avaliação os estudantes do 6º ano atribuem valores mais altos. Em relação aos objetivos educacionais em Ginecologia e Obstetrícia encontramos pontuações muito baixas nos itens constantes do “domínio B” – exames especiais em Ginecologia e Obstetrícia, sendo que pontuações mais elevadas foram encontradas no “domínio A” – habilidades básicas em Ginecologia/Obstetrícia. A hipóteses testada com respeito à influência dos dados sociodemográficos sobre os objetivos educacionais foi em parte comprovada. Assim, os estudantes do 6º ano atribuem melhores classificações em relação aos do 5º ano do curso, assim como os grupos etários mais velhos e os que permanecem mais tempo na faculdade. Sobre os comentários dos estudantes em relação às metodologias de ensino, houve grande aceitação sobre a necessidade de introdução no ensino-aprendizagem de novas metodologias, a necessidade de aumentar as aulas práticas e a necessidade de se melhorar o acompanhamento pelos docentes.

Esperamos que este estudo, e outros que venham a ser realizados no âmbito do processo ensino-aprendizagem, alertem para a necessidade de intervenções, no sentido de melhorar, sobretudo ao nível da formação pedagógica de docentes, todo o processo nos mais variados aspetos. Os dados obtidos também fundamentam a necessidade da revisão dos curricula, das metodologias de ensino-aprendizagem, assim como do cenário em que se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem da Ginecologia/Obstetrícia. Ter em consideração estes resultados pode revestir-se de um significado importante, sendo que, através do desenvolvimento do interesse e consciência das implicações e necessidades dos estudantes de medicina e do perfil/competências a adquirir, poderá permitir um avanço para uma estratégia de intervenção e mudança efetiva. Este processo de mudança permitirá um rumo ao cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, considerando a importância de que se reveste o ensino-aprendizagem na Ginecologia e Obstetrícia no contexto angolano, país onde as taxas de mortalidade materna são muito elevadas.

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Publicado
2021-11-18