Centros de Inteligência Estratégica da Gestão Estadual do SUS (CIEGES/Conass): relato de experiência sobre modelo em rede, painéis hierarquizados e governança de dados para fortalecer a tomada de decisão no Sistema Único de Saúde

Palavras-chave: Sistemas de Informação em Saúde, Gestão da Informação em Saúde, Governança de Da- dos, Gestão baseada em evidências, Troca de Informação em Saúde, Políticas, Planejamento e Administração em Saúde, Administração em Saúde Pública, Sistemas de Saúde

Resumo

 Introdução/Antecedentes: A gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), orientada pelos princípios de universalidade, integralidade e equidade, constitui um campo de elevada complexidade, atravessado pelo federalismo sanitário, pela diversidade territorial, pela multiplicidade de atores institucionais e pela produção cotidiana de grandes volumes de dados administrativos, assistenciais, epidemiológicos e financeiros. A disponibilidade de sistemas de informação robustos, como e-SUS Atenção Primária, Sistema de Informações Ambulatoriais, Sistema de Informações Hospitalares, Sistema de Informações sobre Mortalidade, Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações, Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde e sistemas orçamentário-financeiros, não garante, isoladamente, uso efetivo, oportuno e seguro da informação na gestão. Persistem desafios relacionados à fragmentação, baixa interoperabilidade, heterogeneidade de padrões, qualidade dos dados, proteção de dados pessoais e limitada capacidade de tradução analítica para apoiar decisões. Nesse contexto, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) intensificou a indução de práticas inovadoras de governança de dados e inteligência estratégica para a gestão estadual do SUS.

Objetivo: Descrever, como relato de experiência, a criação, o desenvolvimento e a consolidação dos Centros de Inteligência Estratégica da Gestão Estadual do SUS (CIEGES), coordenados pelo Conass, e discutir suas contribuições, limites e implicações para a qualificação da tomada de decisão e o fortalecimento da gestão estadual do SUS.

Materiais e Métodos: Trata-se de relato de experiência técnico-institucional, de natureza descritiva e analítica, fundamentado em análise documental e sistematização de experiências desenvolvidas no âmbito do CIEGES/Conass e da Rede CIEGES no período de 2023 a 2025. Foram consideradas fontes normativas e institucionais relacionadas à Política Nacional de Informação e Informática em Saúde, à Estratégia de Saúde Digital para o Brasil, à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a documentos e materiais técnicos do Conass, a registros de reuniões, relatórios de acompanhamento, apresentações institucionais e produtos analíticos utilizados na implantação dos CIEGES estaduais. Os materiais foram selecionados por pertinência temática, vínculo com a implantação dos CIEGES e disponibilidade institucional. A sistematização combinou leitura dirigida, categorização temática, triangulação entre documentos, experiências relatadas pela rede e evidências de produtos desenvolvidos. As categorias de análise foram: governança de dados, interoperabilidade, organização dos painéis, tecnologia física e social, implantação federativa, usos decisórios e desafios de sustentabilidade.

Resultados: A experiência do Conass durante a pandemia de COVID-19, especialmente com painéis de monitoramento de casos, óbitos, excesso de mortalidade, leitos e insumos críticos, evidenciou a importância de informação confiável, tempestiva e acessível para gestores e sociedade. Em 2023, o CIEGES/Conass foi estruturado como apoio permanente à decisão, articulando dados, pessoas, processos e tecnologias, em alinhamento com a Política Nacional de Informação e Informática em Saúde e a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil. O modelo conceitual foi organizado pela pirâmide da inteligência: dados brutos são qualificados e contextualizados para gerar informação; informações são analisadas criticamente para produzir conhecimento; e conhecimento é transformado em inteligência aplicada quando orienta decisões estratégicas, táticas e operacionais. A hierarquização dos produtos em painéis estratégicos, táticos e operacionais reduziu sobrecarga informacional e favoreceu o uso diferenciado por alta gestão, gestores intermediários e equipes técnicas. A implantação foi impulsionada por demanda e respaldo da alta gestão estadual, com adaptação às maturidades locais e preservação de coerência conceitual. Até 2025, registrou-se a implantação de 17 CIEGES estaduais e a consolidação da Rede CIEGES/Conass como espaço de compartilhamento metodológico, aprendizagem entre pares e disseminação de boas práticas. O CIEGES foi certificado pela Organização Mundial da Saúde/Organização Panamericana da Saude como Centro Colaborador – BRA-93, em sistemas de informação para criação de inteligencia gestora e saúde digital para os estados membros.

Conclusão: Os CIEGES configuram inovação institucional relevante na gestão pública em saúde ao estruturar capacidades para converter dados em informação qualificada, conhecimento e inteligência aplicada à decisão. A experiência sugere potencial para reduzir fragmentação informacional, fortalecer governança de dados e induzir cultura de gestão orientada por evidências. Sua consolidação, entretanto, depende do enfrentamento de desafios persistentes: qualidade e padronização dos dados, interoperabilidade semântica e tecnológica, proteção de dados pessoais, formação contínua de equipes, avaliação de impacto, sustentabilidade financeira e uso transparente, explicável e responsável de inteligência artificial.

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Publicado
2026-07-24
Como Citar
1.
Terabe S, Alves J, Vinicius de Carvalho M. Centros de Inteligência Estratégica da Gestão Estadual do SUS (CIEGES/Conass): relato de experiência sobre modelo em rede, painéis hierarquizados e governança de dados para fortalecer a tomada de decisão no Sistema Único de Saúde. ihmt [Internet]. 24Jul.2026 [citado 24Jul.2026];25(1):95 -103. Available from: https://anaisihmt.com/index.php/ihmt/article/view/567