Transformação digital e sustentabilidade do Sistema Único de Saúde: Cuidado Direcionado por Dados, valor e cooperação em saúde
Resumo
Este artigo examina a evolução da infoestrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua relação com a sustentabilidade da universalidade, a coordenação do cuidado e a transição para modelos de gestão orientados por dados e valor. Trata-se de estudo descritivo-analítico, baseado em revisão narrativa e análise documental de marcos normativos, publicações científicas e fontes institucionais. Argumenta-se que a transformação digital do SUS não se limita à informatização de processos, mas constitui condição para o Cuidado Direcionado por Dados (CDD), entendido como a capacidade institucional de integrar dados clínicos, epidemiológicos e operacionais para apoiar decisões, monitorar desfechos e qualificar a alocação de recursos. A trajetória analisada mostra que os sistemas nacionais de informação foram historicamente estruturados de forma fragmentada, com ênfase em faturamento, vigilância e registros episódicos, limitando a visão longitudinal do usuário. A partir da década de 2010, políticas de interoperabilidade, a Política Nacional de Informação e Informática em Saúde (PNIIS), a Estratégia de Saúde Digital (ESD28) e, sobretudo, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) passaram a configurar uma arquitetura voltada ao intercâmbio federado de dados. Experiências estaduais recentes indicam avanços em prontuários eletrônicos, repositórios de dados, telessaúde, interoperabilidade e inteligência analítica, mas também revelam assimetrias regionais e diferentes graus de maturidade institucional. Discute-se que a RNDS pode habilitar estratégias de Saúde Baseada em Valor ao permitir mensuração de desfechos, custos, experiência do usuário e continuidade assistencial, alertando para os riscos de novos modelos de financiamento baseados em renúncia fiscal, como o Programa Agora tem Especialistas (PATE), que, na ausência de salvaguardas orientadas por dados, ameaçam a sustentabilidade e a equidade do SUS. Adicionalmente, sugere-se fortalecer a inteligência territorial por meio de Salas de Situação em Saúde, entendidas não apenas como painéis de indicadores, mas como dispositivos técnico-políticos de apoio à decisão, voltados à integração de múltiplas fontes de informação, análise situacional, identificação de problemas prioritários e orientação de intervenções no território. Essa perspectiva articula a RNDS, as Redes Estaduais de Dados em Saúde (REDS), tecnologias públicas de Big Data e Inteligência Artificial e processos institucionais de planejamento, regulação, monitoramento e avaliação. Conclui-se que a sustentabilidade do SUS depende da institucionalização da saúde digital como política de Estado, do fortalecimento da governança federativa de dados e da cooperação internacional, especialmente na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como espaço de aprendizado e compartilhamento de arquiteturas públicas de saúde digital.
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