Entre a rota do Oriente e a medicina tropical: a Ilha de Moçambique como porta de entrada da medicina europeia no Oceano Índico (1498–1898)
Resumo
O presente estudo analisa a ilha de Moçambique como um espaço privilegiado de confluência entre rotas comerciais, culturas e saberes médicos ao longo de quatro séculos (1498-1898). A partir da chegada de Vasco da Gama e da progressiva afirmação portuguesa no Índico, a ilha emerge como um ponto estratégico não apenas para o comércio, mas também como porta de entrada da medicina europeia na África Oriental. O estudo contextualiza a realidade pré-colonial, marcada por sistemas de cura locais assentes em práticas comunitárias, saberes islâmicos e medicina tradicional africana. Com a presença portuguesa, assiste-se à introdução de estruturas formais de assistência, nomeadamente hospitais associados a fortalezas e insti- tuições religiosas, que procuravam responder às necessidades de navegadores, militares e missionários. O artigo descreve a evolução atribulada do hospital da ilha desde o século XVI, evidenciando ciclos de construção, destruição e reorganização, bem como o papel de diferentes agentes, como a Misericórdia e os Irmãos de São João de Deus, na gestão da assistência. Ao longo do tempo, estas instituições foram-se transformando, passando de espaços de acolhimento a unidades progressivamente medicalizadas, em linha com reformas europeias. Destaca-se ainda a crescente abrangência dos serviços de saúde, que passaram a at- ender não apenas militares, mas também civis, populações locais e comunidades diversas do mundo índico, refletindo a complexidade social e cultural da região. Assim, a ilha de Moçambique é apresentada como um laboratório histórico de circulação de práticas médicas, onde se cruzam e interagem saberes europeus, africanos e asiáticos, revelando a medicina como parte integrante dos processos de expansão, dominação e intercâmbio cultural no contexto colonial.
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