Planos integrados, lagos artificiais e medicina tropical – o caso de Cahora Bassa nos anos 1960-1970

  • Ana Paula Silva Investigadora de pós-doutoramento, Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal
Palavras-chave: Planos integrados, lagos artificiais, Cahora Bassa, medicina tropical, medicina ambiental

Resumo

Os planos integrados de aproveitamento das bacias hidrográficas dos rios africanos eram abrangentes e visavam vastas áreas territoriais, como o do Zambeze em Moçambique, elaborado pelas autoridades portuguesas entre 1956-1965. Este plano incluiu a construção de um grande lago artificial – a albufeira da barragem de Cahora Bassa – que se entendeu, então, ter graves consequências na saúde mental e física das populações afetadas pela obra. Entendimento este patente em alguns documentos tais como o “Reordenamento das populações das áreas a inundar pela albufeira de Cahora Bassa”, produzido pela Missão de Fomento e Povoamento do Zambeze (1967-1970) e das “Bases para o Estabelecimento do Programa Geral da Comissão Orientadora da Investigação Científica na Área a Inundar pela Albufeira de Cabora Bassa”, elaborado por Falcão et al. (1970). A análise destes documentos deu origem ao presente artigo que visa apresentar dados que sustentem a hipótese de que o trabalho desses técnicos e cientistas portugueses terá aberto o caminho para a Medicina Ambiental em Portugal e para a atual linha de investigação transversal do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, as “Doenças Emergentes e Alterações Ambientais”.

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Publicado
2018-06-24