O 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical (Lisboa, 1952) e a “Missão Civilizadora” de Portugal no Mundo

  • Isabel Amaral Professora Auxiliar, Departamento de Ciências Sociais Aplicadas e Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNL
  • Luís Costa Faculdade de Ciências e Tecnologia, Departamento de Ciências da Vida/ Antropologia Universidade de Coimbra CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia)
  • João Duarte Assistente, Faculdade de Arquitectura e Artes Universidade Lusíada de Lisboa
  • José Luís Doria Instituto de Higiene e Medicina Tropical - Museu, Biblioteca e Arquivo Históricos
  • Rita Lobo Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNL
Palavras-chave: 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical 1952, João Fraga de Azevedo, Tripanossomíases, Malária, Assistência Sanitária no Ultramar

Resumo

O presente trabalho resulta da iniciativa que a direcção do Instituto de Higiene e Medicina Tropical IHMT (instituição que representa hoje a primeira escola de Medicina tropical portuguesa criada em Lisboa em 1902) concretizou em 2013, ao realizar o 2º Congresso Nacional de Medicina Tropical, fazendo memória do 1º congresso ocorrido 61 anos antes. Tem por objectivo reflectir sobre as motivações que conduziram à realização do 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical realizado em Lisboa em 1952, em memória dos 50 anos de história da medicina tropical portuguesa no âmbito do projecto imperialista encetado pelo Estado português, bem como da projecção que teve nos anos seguintes e que serviu de mote à realização de uma exposição que esteve patente ao público no IHMT, entre os meses de Abril e Julho de 2013, “Portugal no Mundo – o 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical, 1952”. O 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical, liderado pelo seu director João Fraga de Azevedo (1906-1977), representa para a história da ciência e da medicina portuguesa, um marco incontornável na compreensão da retórica e do discurso colonial/ultramarino português, para o qual a medicina tropical, os seus actores e instituições contribuíram de forma significativa para o projecto imperialista, na consolidação e projecção da imagem de Portugal no mundo. O Congresso organizou-se em torno de dois eixos de análise: a Exposição Documental das Actividades Sanitárias do Ultramar, comemorativa do cinquentenário da medicina tropical portuguesa, e o congresso científico propriamente dito, que reuniu os principais actores da rede médica na metrópole e nas colónias, no contexto nacional, bem como a participação de algumas figuras de relevo da medicina tropical mundial. Como proposta metodológica atentar-se-á na análise do material documental e iconográfico existente no museu do IHMT, como sejam a correspondência, o programa científico e social, as comunicações científicas, a iconografia associada à exposição sobre a actividade sanitária no Ultramar, bem como alguns filmes realizados por ocasião do evento. Dos múltiplos trabalhos apresentados neste congresso, posteriormente publicados sob a forma de actas nos Anais do Instituto de Medicina Tropical, destacaremos as comunicações sobre as tripanossomíases e a malária, bem como alguns elementos da Exposição Documental das Actividades Sanitárias do Ultramar, elementos cruciais para a compreensão da importância deste evento para a consolidação e projecção da imagem de Portugal no mundo. Possa este trabalho contribuir para explorar novas e diferentes vias de investigação sobre a medicina tropical portuguesa dando continuidade a este pedaço da nossa história sempre inacabada.

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Publicado
2018-09-08
Secção
Mostra Museológica do IHMT